Corpo estranho
Mamãe foi à igreja hoje.
O pastor disse que ela tem o diabo no corpo. Dentre todos em que a metralhadora disparou, apenas mamãe caiu aos pés do pastor. Me apressei para socorrê-la, mas ele me impediu com uma mão no ombro. “Ela precisa de salvação”, disse.
Mamãe estava passando mal há semanas. Pensei que pudesse ser do estômago, já que desde que havia feito a bariátrica tinha mudado a alimentação e o estilo de vida. Se não tivesse sido chamada para a cirurgia, mamãe não estaria mais aqui.
Fiz algumas batatas cozidas e ela se recusou a comer.
Vivia de água e dizia que tinha gosto de enxofre.
Eu tinha medo dela, também. Passava o dia na igreja e quando voltava não estava falando coisa com coisa, dizia que a comida era do Diabo, que a casa estava assombrada.
Perdia quilos e quilos e ao invés de comemorar, dizia que era coisa do Diabo.
— Só ele mesmo pra querer isso…— disse baixinho enquanto olhava sem ânimo para o prato de frutas a sua frente.
— Que você vivesse mais?
— Que eu vivesse infeliz!
Hoje ela teve a comprovação de que estava com o demônio no corpo e eu não podia fazer nada enquanto mamãe estrebuchava no chão.
— Ela tá sangrando pela boca! — disse uma fiel atrás de mim. Olhei rapidamente em busca da voz, não encontrei ninguém e voltei-me para mamãe, com sangue no nariz e uma poça no chão.
Empurrei o pasto com força e arrastei o corpo ainda pesado para o meu colo.
— Fale comigo, mãe — pedi baixinho e ela não respondeu. Mamãe suava frio e os olhos já não abriam mais.
— Um médico! — gritou outra pessoa que não reconheci a voz.
Não sabia se era Deus ou o Diabo tentando ajudar. Esperava que finalmente Deus tivesse tomado as rédeas de tal situação pavorosa. Mamãe ainda era obesa, apesar dos oitenta quilos perdidos. Levantá-la não era tarefa fácil, assim como colocá-la na ambulância e equilibrá-la na maca realmente pareciam tarefas do capeta.
E de fato eram.
Mamãe morreu por um corpo estranho.
Um bisturi.
"Nós não somos selvagens. Nós não somos animais. Nós não somos alienígenas. Nós somos humanos e somos americanos." - Bad BunnyEstoy cansadita, pero sigo em frente
Se alguém te falar que ser autor no Brasil cansa, acredite. E você que é autor independente, que acha que só porque faz absolutamente tudo sozinho, pode jogar na cara do autor com editora ou agência que ele não tem tanto trabalho, você tá longe de ter noção do mercado que tá entrando.
Nenhum trabalho anula o outro. Inclusive amanhã você pode estar com uma fila enorme na Leitura, depois de amanhã dando várias palestras na Bienal do Livro e no dia seguinte lançando seu próximo romance na Amazon, porque ninguém quis comprar.
O mercado brasileiro não é só cruel, ele trata o autor como descartável. E isso cansa, cansa muito. Faz com que você sempre tenha que se reinventar, estar na moda, falar e ter opinião sobre tudo. E eu não preciso saber sobre todas as fases da guerra na Síria para publicar um livro, sabe? Eu só quero ser lida.
E isso me paralisa.
Tocando agora
Acabou o talão. Até a próxima.




Estamos cansadas, MAS o queridíssimo Bad Bunny ganhou principal prêmio do Grammy! Continuemos persistentes...